Um relato sobre o tsunami
Veja uma entrevista que demos para os alunos da professora Muriel, da quarta-série, do colégio Lyceé Pasteur, sobre o que vivemos durante o tsunami de 2004.

Em primeiro lugar, essa foi a primeira vez que vocês passaram por um tsunami?
Karina: Sim, mas desde minha infância eu era fascinada pelos tsunamis.
Em qual parte do mundo vocês estavam no dia 26 de dezembro de 2004?
Karina: Nós tínhamos chegado na noite de Natal na ilha de Phuket, na Tailândia. Havia muita alegria, música e fogos de artifício. No dia 26 de dezembro, nós tínhamos decidido mergulhar na ilha Phi Phi longe de Phuket.

Vista de Phi Phi
Praia de Patong
A que horas do dia ocorreu o tsunami?
Karina:A primeira onda do tsunami atingiu a ilha aproximativamente às 10 horas da manhã.
A que horas vocês mergulharam?
Karina: Mergulhamos às 9h30.
A que profundidade vocês estavam nesse momento de mergulho?
Karina: Estávamos a 23 metros de profundidade.
Vocês sentiram alguma coisa sob a água nos momentos do tsunami?
Karina: Tive a sensação de estar no meio de um turbilhão. Havia uma corrente de água que me empurrou na direção dos rochedos. Felizmente Isac me segurou pelas pernas. Eu achei esse fenômeno muito estranho, pois tinham me assegurado que não havia nenhuma corrente nesse lugar.
Como se comportaram os animais marinhos?
Karina: Tinham comportamentos variáveis. Alguns peixes nadavam em todos os sentidos e outros estavam calmos e descansavam na areia do mar como um tubarão leopardo.
Poderia descrever esse tsunami?
Karina: Ele foi provocado por um choque de duas placas tectônicas que se deslocaram de 10 metros. A velocidade da onda foi de 800 km por hora. Houveram três ondas sucessivas: a primeira media 10 metros de altura e a última aproximava os 5 metros. Em alto mar a gente não sente o tsunami; ele vira destrutivo quando atinge as costas das ilhas e dos continentes.


Quando vocês entenderam que tinham escapado de um tsunami?
Karina: Quando voltamos, nós cruzamos um barco em que estavam dois homens tailandeses que pareciam desesperados. Um deles disse que tinha perdido sete turistas estrangeiros levados pelo mar. Então a gente percebeu por toda parte muitos pedaços de madeira flutuando na superfície. Eu disse às pessoas que estavam comigo que eu achava que tinha havido um tsunami. As pessoas da região riram e afirmaram que não havia tsunamis desde 1943. Então recebemos por radio a ordem de não voltar diretamente para Phi Phi pois estavam esperando novas ondas e o cais tinha sido destruído. Finalmente, conseguimos ancorar na praia e nadamos na água lamacenta cheia de dejetos, restos de madeira. Nós não tínhamos mais dúvidas: era mesmo um tsunami.
Vocês poderiam descrever Phi Phi após o tsunami?
Karina: Havia muitos peixes mortos, o bar do hotel estava destruído e um barco tinha adentrado o hotel. Nosso bangalô tinha resistido ao tsunami porque estava suspenso em uma palafita. Os estragos materiais foram muito grandes, mas insignificantes comparados às perdas humanas que foram tão numerosas. Caminhões circulavam transportando corpos envoltos em lençóis brancos. Eu vi um homem jovem que carregava nos braços sua criança morta. E aquilo me emocionou muito.
Como médicos, vocês ajudaram os feridos?
Karina: Sim, com certeza ... Isac organizou os socorros dentro do hotel e eu o ajudei. Os machucados eram superficiais: aranhões, cortes, rasgões, etc. Nós escutamos histórias trágicas de crianças, de pais, de amigos mortos pelo tsunami. Nós nos lembramos da história de um casal de alemães de certa idade que se salvaram graças à força do marido. Ele tinha subido num coqueiro com um braço e no outro ele segurava sua mulher. Um casal de amigos que os acompanhavam havia morrido.

Vocês tem uma história particular para nos contar?
Karina: Sim! Quando chegamos a Pukhet tínhamos encontrado um jovem casal brasileiro. Falando com eles, a gente soube que eles não sabiam muito bem o que fazer no dia 26. A gente propôs de fazer um mergulho. Felizmente eles seguiram nossa idéia e salvaram suas vidas. O quarto do casal tinha sido destruído e eles perderam todos os documentos. Mas isso era só um detalhe sem importância. Então somos muito felizes de saber que, graças a nossos conselhos, salvamos duas vidas humanas.
Que lição de vida vocês guardaram para sempre?
Karina e Isac: A gente entendeu que a nossa missão sobre a terra não tinha terminado. A vida é um presente precioso. Temos de aproveitar cada momento e fazer o bem ao nosso redor.
Casal Tsunami